Acarapisose


Definição


É uma endoparasitose contagiosa, que invade o aparelho respiratório das abelhas adultas, localizando-se no primeiro par de traqueias, que pode ocasionar a morte da colónia infestada.

Destribuição geográfica


A acarapisose, descoberta na Grã-Bretanha, foi confundida com a doença da ilha de Wight, até 1921, ano em que Rennie precisou a sua etiologia.

A doença foi diagnosticada no continente europeu nos anos 20, na Bélgica, França, Suiça, Áustria e Polónia, e também na Alemanha e Espanha, causando sempre uma alta mortalidade nas colónias de abelhas. Hoje, encontra-se expandida por todo o mundo, excepto na Austrália.

Etiologia

Vários estádios de vida de Acarapis woodi do tubo da traqueia da abelha (larva, macho, fêmea, ovo).

O parasita causal da Acarapisose designa-se também pelo nome de Tarsonemus woodi, que foi substituído pelo actual Acarapis woodi, por Hirst.

Acarapis woodi pertence ao tipo Artropoda, classe Arachnida, ordem Acarina, família Tarsonemidae e é parasita específico da abelha do mel. Existe dimorfismo sexual, de modo que o macho (85-116mm x 57-85mm) é mais pequeno que a fêmea (80mm x 120 mm). O macho tem as patas mais largas, apresentado, na parte dorsal do seu corpo, três segmentos, enquanto a fêmea apresenta cinco segmentos.

Dispõem de pelos olfactivos que se encontram nos extremos dos dois primeiros pares de patas, e no macho, também no quarto par, estando mais desenvolvido neste para a procura das fêmeas. Para os isolamentos utilizam sobretudo o segundo e terceiro par de patas. Tem uma cor ligeiramente amarela parda e um aparelho bucal picador.

Hospedeiros: factores de receptividade

Acarapisose afecta as abelhas adultas da colónia e o Acarapis woodi parasita de igual forma a rainha, as obreiras e os zângãos. O ácaro instala-se de forma quase exclusiva no primeiro par de traqueias torácicas, que são maiores que o resto, o que permite a penetração do parasita. 

A idade do hospedeiro desempenha um papel primordial na receptividade do ácaro. As abelhas estão livres deste parasita quando nascem, mas não são as mais receptivas, pois têm contacto com as abelhas velhas e infectadas, podendo ser afectadas até 90% dos casos, diminuindo esta percentagem a 10%, quando o hospedeiro alcança a idade de cinco dias. Tal deve-se à barreira que oferecem os pêlos da abelha, que rodeiam os estigmas torácicos, que se vão espessando e endurecendo, o que permite a saída do parasita, mas não a entrada.

Relação: Parasita / Hospedeiro / Ambiente

Acarapis woodi fêmea A acarapisose é uma doença cujo parasita depende de muitos factores ecológicos. Tem carácter endémico em determinadas regiões e noutras apresenta-se esporadicamente. 

A fêmea de A. woodi fecundada penetra na traqueia da abelha e aos 4-5 dias realiza a postura, que não é muito abundante, 5-6 ovos. Estes ovos eclodem aos 4 dias, dando como resultado larvas que têm forma de saco e somente com o primeiro par de patas desenvolvido, consomem a hemolinfa do hospedeiro e passados 6-7 dias, convertem-se em deutoninfas com quatro pares de patas, que posteriormente dão lugar a ácaros adultos. 

A duração total do desenvolvimento do ácaro desde a eclosão do ovo até à formação do ácaro adulto é de 11-12 dias para os machos e de 13-16 dias para as fêmeas. Estas, uma vez fecundadas, abandonam a traqueia pouco depois e por contacto, passam ao sistema da traqueia da outra abelha. A escassez de alimento ou as más condições meteorológicas, no interior da colmeia, aumentam as possibilidades de propagação da doença. 

É frequente, um certo período de latência da doença, pois a taxa de multiplicação do ácaro nas colónias das abelhas é baixa. No verão morrem muitas abelhas infestadas e, por isso, a pressão diminui. 

O bom tempo e a abundante floração fazem com que, em muitas ocasiões, não se valorize a perigosidade deste parasita, já que produz uma regressão espontânea da doença, que se deve à baixa taxa de reprodução do ácaro e a relativa brevidade de vida das abelhas obreiras (30-40) dias. No Inverno, quando as abelhas vivem mais tempo, os ácaros podem exercer melhor a sua acção patogénica. 

O ácaro suporta com mais dificuldade as temperaturas baixas do que as altas, pois a 15ºC, os seus movimentos são lentos, sendo normal aos 30-34ºC. A humidade ambiente baixa prejudica e a alta favorece o seu desenvolvimento. 

O odor das abelhas não influi na orientação do ácaro na procura do hospedeiro e pode viver pouco tempo nas abelhas mortas (12-15 horas), tal como sucede no exterior das mesmas, pois necessita de se alimentar. A vida média de um ácaro é de 15-20 dias, ainda que a maioria morra passados 10 dias. A transmissão da doença num apiário realiza-se pela deriva, a pilhagem e os erros de manuseamento do apicultor; entre apiários distantes, pela transumância não controlada e pelas transacções comerciais. 

Patogenia


Acarapis woodi, no interior do primeiro par de traqueias torácicas, produz uma obstrução mecânica nas vias respiratórias, impedindo a chegada de oxigénio a zonas musculares importantes e centros nervosos.

Os parasitas rompem os tecidos da traqueia, o que possibilita a entrada de bactérias e vírus, utilizando para tal o seu poderoso aparelho bucal e consomem a hemolinfa que circula pelas massas musculares que rodeiam a traqueia, depositando toxinas na mesma.

O primeiro par de traqueias torácicas encontra-se à altura da articulação das alas. Debaixo desta articulação existe um sistema neuromuscular complexo, que é afectado pelo parasita. 

Sintomatologia

A sintomatologia da doença não é precisa, nem característica. Quando manifestam sintomas, a abelha continua os seus trabalhos de forma habitual. A parasitose pode ter um largo período de latência, 2-3 meses, em que não se apresentam sintomas. Quando a doença se agrava, o voo das abelhas é lento e às vezes impossível pela alteração dos músculos das asas, que surgem trémulas. Estas apresentam uma posição anormal, perpendicular ao corpo e caídas, como deslocadas. Efectuam grandes esforços para iniciar o voo. As abelhas reúnem-se em pequenos grupos antes de morrer. O abdómen surge distendido, devido à impossibilidade de realizar o voo de limpeza, aquando de dias amenos.

A doença pode permanecer durante todo o Inverno na colónia. Um consumo prematuro de reservas corporais provoca uma repleção excessiva da ampola rectal das abelhas parasitadas, que apresentam um abdómen dilatado, o que pode dar como resultado uma disenteria. 

Lesões


Os ácaros, larvas, ovos, restos de mudas provocam uma dispneia devido à obstrução que produzem no hospedeiro e as traqueias perdem a sua permeabilidade e elasticidade, apresentam-se quebradas e o depósito de toxinas na hemolinfa pode provocar uma septicemia no hospedeiro.

A zona muscular existente na articulação das asas está danificada e produz-se uma degeneração muscular. A doença pode estar a desenvolver-se durante o Inverno, no final deste ou início da Primavera, com uma infestação superior a 30%, provocar uma morte considerável de abelhas.

Diagnóstico

Clínico: 

A constatação dos sintomas indicados anteriormente não permitem assegurar que a colónia está parasitada por Acarapis woodi, ainda que as abelhas que passam o Inverno infestadas, e depois do período de latência, apresentam sintomas claros e o diagnóstico é mais fácil. A observação das colónias durante o Verão, com o fim de detectar sintomas de Acaropisose, poucas vezes proporciona datas fiáveis, devido a que nesta época, a curta vida das abelhas impede o desenvolvimento de ácaros, cuja multiplicação é relativamente lenta.

Laboratorial:

A amostra de abelhas a analisar deve reunir condições adequadas, caso contrário é muito difícil realizar um diagnóstico seguro, quando o material está amolecido ou muito seco. As traqueias podem observar-se ao microscópico, detectando a presença de ovos, formas imaturas ou ácaros adultos. As lesões são inequívocas: as traqueias aparecem rotas, as paredes mudam de cor e são mais frágeis que as das abelhas sãs.

Diferêncial:

Em certas circunstâncias, podemos encontrar o parasita sobre o tórax das abelhas, na base das asas, e, em certos casos, nas articulações. Neste caso, é preciso realizar um diagnóstico diferencial com o Acarapis dorsalis - vive sobre o dorso (costas); Acarapis vagans – encontra-se sobre todo o corpo da abelha adulta; Acarapis externus – vive na região do pescoço. 

Profilaxia

Diagnosticada de forma precoce a doença é conveniente isolar as colónias infestadas e pode aproveitar-se destas todos os quadros com cria para reforçar as outras colónias sãs. 

O mel deixado na colmeia para alimento invernal deve ser abundante. É adequado elevar as colmeias do solo para evitar a humidade, assim como impedir que as abelhas infestadas e fora da colmeia, penetrem na mesma. 

Evitar a deriva, a pilhagem e os erros de manuseamento do apicultor, como meio mais adequado para difundir a doença. O apicultor facilita a luta contra esta doença quando trabalha com colónias vigorosas e rainhas jovens com grande potencial de postura.