Ascosferiose

A Ascosferiose é uma micose invasiva que afecta exclusivamente as larvas com três, quatro dias de vida. Também conhecida como “cria giz”, devido ao seu aspecto e consistência característicos que se assemelham aos fragmentos do gesso. 

    É a micose mais frequente da abelha produtora de mel e é produzida pelo fungo Ascosphaera apis, que causa graves problemas às colónias pelo contágio e patogenias que apresenta.
 


 

    A cria com ascosferiose tornou-se, nos últimos anos, num problema grave para o mundo. Actualmente, encontra-se muito expandida pela Europa, América do Norte, alguns países da América do Sul, América Central, África e Oceânia. 
 


 


 


 

    O fungo Ascosphaera apis pertence à Ordem Ascospherales, Família Ascosphaeraceae. Esta micose também tem origem pela acção de Ascosphaera major e A. proliperda.

O fungo tem temperaturas óptimas de crescimento de 15 a 37ºC. Cresce bem in vitro em meios ricos em açúcares e peptona, com ph7, e suporta melhor as condições de acidez que as de alcalinidade. Cresce bem em aerobiose e concentrações de 5% a 10% de CO2 favorecem o seu desenvolvimento. 

    Está dotado de um amplo equipamento destinado à degradação dos açúcares, muito abundantes no meio em que se desenvolvem. Apresenta também uma enzima de vital importância para o seu mecanismo patogénico. 

    Os esporos são hialinos e elipsoidais com 2 x 3 mm, elementos de conservação e de disseminação da doença, e apresentam uma superfície que lhes permite aderir a distintos substratos. Podem encontrar-se no mel, no pólen armazenado, na cera e sobre o corpo e no intestino de abelhas adultas, em colmeias saudáveis e doentes. 

    Possuem uma grande resistência, devido, em parte, à parede grossa (30% do diâmetro do esporo), podem permanecer viáveis mais de 15 anos no meio ambiente, 1 ano no pólen e 2 anos no mel. Suportam temperaturas de 16ºC durante 6 dias e 40ºC durante mais de um mês, sobrevivendo facilmente à temperatura de fusão da cera, ao formol e a altas concentrações de ácido sulfúrico. Germinam numa atmosfera rica em dióxido de carbono (12%) e resistem às radiações ultravioletas.

    A cria apresenta algumas características de grande importância. Uma delas é a variação nos níveis de infecção; um apicultor pode colocar no seu apiário colmeias pouco afectadas e outras com grande mortalidade na sua cria. As razões para tal residem na resistência intrínseca de cada colónia às doenças. 

    O surgimento e a evolução da doença estão relacionados com o stress gerado por distintas causas: não se deve só à ingestão de esporos pelas larvas (reinfecção), mas também à actuação de factores ambientais e de manuseamento da cria. 

Um grande número de contingências são capazes de provocar stress nas colmeias; a quantidade e a diversidade das mesmas podem variar de acordo com a zona geográfica em que se desenvolve a actividade apícola. Entre as mais conhecidas, podem referir-se:
 


 


 

- Arrefecimento da cria: é o factor de maior relevância. Não é necessária uma grande exposição a baixas temperaturas para que se desencadeie a doença. 

- Desequilíbrios nutrizes/cria: quando a população de abelhas nutrizes não é a adequada, a temperatura do ninho de cria não consegue manter-se em forma normal.

- Elevada humidade e ventilação deficiente. 

- Deficiências com a alimentação: causadas por um escasso aporte de pólen.

- Manuseamento inadequado e excessivo.

- Padecimento de outras doenças e infecções provocadas pela Varroa jacobsoni.

Ascosphaera apis é um fungo heterotálico e produz elementos de resistência e dispersão (esporos) que são ingeridos pelas larvas com o alimento, ocasionando, desta forma, a infecção.

    O fenómeno reprodutor implica a intervenção de dois tipos de micélio que se denominam comummente masculino e feminino (+) e (y). Quando ambos crescem juntos, o micélio feminino desenvolve duas estruturas reprodutoras que têm o nome de nutriocisto e tricogino. 

    Os esporos germinam na parte posterior do intestino médio e o micélio formado começa a crescer, invade os tecidos, atravessa a cutícula, emerge à superfície da larva e recobre quase totalmente o corpo larval. 

    Se bem que as larvas podem ingerir esporos durante toda a etapa de alimentação, determinou-se que o período de maior susceptibilidade corresponde ao tempo que vai desde a operculação. Em princípio, as larvas mortas apresentam um aspecto algodoeiro e logo secam e mumificam.
 

    A aparência final das múmias será branca se o micélio envolvido for de um só signo sexual, e negro se o micélio apresentar hífas de distintos sexos, que ao copular produzem os corpos frutíferos responsáveis pela respectiva coloração. 

    As múmias podem estar no solo ou à entrada ou no piso da colmeia, removidas pelas obreiras limpadoras. Também podem ser encontradas nos favais, tanto em celas não operculadas como operculadas.
 


 


 


 

    A A. apis aparece em princípio sobre a cria do zangão, para estender-se posteriormente à cria de obreiras, ainda que não seja uma regra que se cumpra estritamente. 

    No apiário nota-se a presença de “múmias” extraídas pelas abelhas limpadoras sobre a tábua de voo ou à frente das colmeias observando-se uma despovoação e uma baixa actividade nas colmeias afectadas. 

    As larvas infectadas apresentam inicialmente uma consistência algodoeira, devido à extensão do micélio. A água dos tecidos evapora-se e a mumificação começa a endurecer a cria. 

    As larvas no interior das celas trabalhadas não estão aderentes às paredes e tal faz com que ao mover-se o quadro se produza um ruído.

    A disposição irregular da postura que se obtém pela limpeza de múmias, não estando infectadas todas as larvas e a nova postura da rainha, faz com que se apresente em mosaico. 
 

    As “múmias” mantém uma cor branca suja, se não produziram esporos; caso contrário, a sua coloração é cinzento azulado ou quase negra. 
 


 

    A dispersão da doença através dos esporos ocorre de distintas maneiras:
Entre colmeias saudáveis e doentes:
 

- Ao produzir-se a pilhagem sobre a colónia muito afectadas pelo fungo, as abelhas regressam às mesmas colmeias com uma carga de esporos aderentes ao seu corpo.

- As abelhas de colónias doentes que perdem o rumo e regressam a colmeias que não são as suas.

- Parasitas de Varroa jacobsoni são vectores da importância da doença.

- Através do percurso de abelhas sãs a fontes florais já visitadas por abelhas de colmeias doentes. 

- O próprio apicultor, por meio de um manuseamento inadequado, intervém na disseminação de esporos de Ascosphaera apis.

Dentro da mesma colmeia:
 

- Por trofalaxia (transferência de alimento de uma abelha adulta a outra)

- Por fezes e restos de larvas doentes que ficam no interior das cela.
 


 


 


 

Clínico: No campo, esta micose é de fácil diagnóstico. As colmeias afectadas apresentam múmias em distintos lugares da colmeia (piso e quadros), como também nas proximidades do buraco.
 

Laboratório: Realiza-se uma análise microscópica do fungo para determinar a espécie envolvida na aparição da doença.
 


 

    É necessário não confundir A. apis com outro tipo de fungo, Aspergillus flavus, agente etiológico da micose designada “cria pútrida” que apresenta uma incidência muito menor que a A. apis e que afecta tanto as larvas como as abelhas adultas. Produz aspergilosis no macho (irritação de mucosas e conjuntivas). Outro fungo presente no interior da colmeia é o Bettsia alvei, que afecta fundamentalmente o pólen armazenado, que não é consumido pelas abelhas. O aspecto que apresenta faz com que receba o nome de “mofo de pólen”. 
 


 

    Hoje em dia, os trabalhos realizados para alcançar o controlo da Ascosferosis encaminham-se em três direcções:
 

- Busca de agentes químicos

- Práticas de manuseamento 

- Genética de abelhas.
 

    A ventilação da colmeia deve ser vigiada, pois a excessiva abertura pode fazer com que a temperatura do ninho da cria se aproxime da temperatura boa para desenvolvimento do fungo (30ºC) e uma escassa ventilação favorece a esporulação do agente infeccioso, devido ao excesso de anidrido carbónico produzido pela respiração da cria e das abelhas. 

    O local onde a colmeia se encontra deve estar localizado num local com sol, deve estar preparado para evitar que a humidade do solo se transmita às colmeias e que os cursos de água não estejam muito próximos das colmeias. 

    A troca de forma sistemática da câmara de criação é importante pois ao contrário favorece-se o incremento de esporos no interior da colmeia. 

    A alimentação proteica é importante para o desenvolvimento da cria e o uso excessivo de pólen tem uma acção negativa sobre o processo da ascosferiose. 

    A presença do agente infeccioso não é razão suficiente para que se apresente a doença, são necessários outros factores para desencadear a aparição da micose na exploração agrícola. 
 


 


 


 

    As medidas preventivas são as mais eficazes. 

    Um antifúngico ideal deve ser inócuo para as abelhas adultas e cria, não deixar resíduos nos produtos apícolas, ser persistente e fácil de estudar. Estas características, em geral, não se cumprem no seu conjunto. 

    É necessário sublinhar a importância de não utilizar agentes químicos de forma indiscriminada e sem conhecimento, não só perante a perspectiva de que sejam tóxicos para as abelhas ou que deixem resíduos no mel, mas também por causa da aparição de celas resistentes de Ascosphaera apis.
 


 


 


 

    As práticas de manuseamento recomendadas estão dirigidas a reduzir o stress (prevenção de factores predispostos) e a massa infectante (diminuição da carga de esporos).

    É importante evitar a abertura de colmeias em dias frios, o deslocamento de quadros de cria a lugares da colónia onde os cuidados e a temperatura não sejam suficientes, a alimentação com xarope em momentos inadequados; manter colmeias com a população adequada. Deve limitar-se o uso de armadilhas de pólen e providenciar uma boa ventilação para as colmeias.
 

    A instauração de um surto produz a acumulação de esporos no interior da colmeia, pelo que é necessário, junto com a prevenção de factores predisponentes, eliminar o maior número de formas infectantes, retirando os quadros velhos, e evitar trocar material entre colmeias sãs e doentes. 

    Deve ter-se presente a possibilidade de troca da rainha naquelas colónias em que a doença reaparece. As colmeias muito afectadas devem ser isoladas ou mortas, caso seja necessário, queimando quadros e incendiando caixotes.